quarta-feira, 6 de junho de 2012

Alfabetização e o fracasso


     
      A educação brasileira tem passado por grandes problemas. Um relatório recente da Unesco mostra suas deficiências. O Brasil que ocupava a 76° caiu para 80° posição no ranking de monitoramento das metas globais que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Esse relatório analisa dados sobre as matrículas no 1° segmento do ensino fundamental, analfabetismo de jovens e adultos, repetência e evasão escolar e paridade entre gêneros no acesso à escola. O relatório aponta também para o fato do Brasil ser o único país da América Latina com mais de 500 mil crianças em idade escolar fora da escola. O Brasil também tem a segunda maior taxa de repetência latino-americana, com 18,7% na escola fundamental.
     Segundo a Folha Online, no PISA de 2006, os alunos brasileiros ficaram na 53ª posição em Matemática (entre 57 países), na 52ª em Ciências e na 48ª em leitura (entre 56). Neste último, 56% dos jovens alcançaram o nível um ou abaixo dele, em uma escala que vai até cinco. Isso quer dizer que são capazes apenas de encontrar informações explícitas no texto e fazer conexões simples. Fazendo uma comparação com o PISA de 2003, as notas em leitura pioraram.
     Esse panorama é resultado do grande número de alunos que chegam às escolas, mas não são alfabetizados. Esse fenômeno é encontrado em todo o Brasil. Porque esses alunos não conseguem dominar os mecanismos de leitura e escrita? Por que outros apenas decodificam, mas não podem ler nem escrever de forma que a escrita seja um instrumento de inserção social? Por que a escola hoje está formando os analfabetos funcionais, que são em grande número em nosso país? Por que crianças sem nenhuma deficiência aparente não conseguem caminhar com sucesso na aquisição das habilidades necessárias para ler e escrever?
   Essas crianças não conseguem aprender uma vez que a escola não realiza práticas pedagógicas que desenvolvam as estruturas cognitivas para a leitura e a escrita; a incompreensão da leitura e da escrita de forma interdisciplinar na formação do professor, e também as condições de vida das famílias dessas crianças, influenciam na aprendizagem desses alunos.
Como descreve Perrenoud:
Normalmente, define-se o fracasso escolar como a simples conseqüência de dificuldades de aprendizagem e como e expressão de uma ?objetiva? de conhecimentos e de competências. Essa visão, que ?naturaliza? o fracasso, impede a compreensão de que ele resulta de formas e de normas de excelência instituídas pela escola, cuja execução local revela algumas arbitrariedades, entre as quais a definição do nível de exigência, do qual depende o limiar que separa aqueles que têm êxito daqueles que não o têm.(PERRENOUD, 2000, p.18).
    Ou seja, a escola é responsável pelo fracasso de seus alunos, exigindo que todos, ao mesmo tempo, aprendam os mesmos conteúdos, sem levar em consideração o ritmo e características de cada um.
     A alfabetização é o período mais importante da formação escolar de uma pessoa, tendo insucesso o aluno desiste, aumentando as estatísticas da evasão escolar nos anos iniciais. Porém a escola, muitas vezes, não atribui o valor que ela merece, ensinando mecanicamente a decodificação do código lingüístico, sem desenvolver nos alunos, as estruturas cognitivas indispensáveis para a leitura e a escrita.
    De acordo com Miriam Lemle (2006) as capacidades que o aluno precisa ter para se alfabetizar são: compreender a idéia de símbolo; discriminar as formas das letras; discriminar os sons da fala; ter a consciência da unidade palavra e a organização da página escrita.
    Para Lemle (2006), o alfabetizando deve entender primeiro o que são aqueles risquinhos pretos no papel, o que não é tão simples. Já que a idéia de símbolo é bastante complexa. A correlação entre símbolo e coisa simbolizada é parcial, o que quer dizer que, o fundamento da forma de um símbolo não tem ligação direta com as características da coisa. O segundo ponto é a discriminação das formas das letras. Depois de entender o que são os risquinhos pretos no papel, e que cada um deles equivale a um símbolo da fala, a criança precisa fazer a discriminação das formas das letras.Uma vez que algumas letras do nosso alfabeto são muito parecidas. No terceiro ponto o aluno necessita fazer a discriminação dos sons da fala, ou seja, conscientização da percepção auditiva. As letras simbolizam sons da fala, então é preciso perceber as diferenças lingüísticas proeminentes entre os sons, de maneira que se possa optar pela letra certa para simbolizar cada som. A quarta capacidade que o alfabetizando precisa desenvolver é a consciência da unidade palavra, que acontece naturalmente, sem muitos problemas. (LEMLE, 2006). A quinta e última habilidade é a organização espacial da página "... a idéia de que a ordem significativa das letras é da esquerda para a direita na linha, e que a ordem significativa das linhas é de cima para baixo na página". (IBID, 2006, p.12).
     É importante que os professores conheçam essas habilidades, necessárias para a leitura e a escrita, e as desenvolvam nos seus alunos, para que alfabetização aconteça sem muitos problemas.
     Nos anos 80, surgiu no Brasil uma nova concepção de alfabetização, no mesmo período que o conceito de letramento. Essa concepção, de certo modo, está ligada ao construtivismo. Com essa mudança conceitual, o processo de construção da escrita, pelo aluno passou a ser feita por meio da interação com o objeto de conhecimento.
     Relacionando-se com a escrita, a criança vai construindo suas hipóteses sobre ela, aprendendo a ler e a escrever numa descoberta gradativa. Junto com a mudança conceitual, surgiu a idéia de que não era mais preciso um método para se alfabetizar, que foi uma visão equivocada dessa mudança. Nas concepções anteriores ao construtivismo havia métodos nos quais os professores acreditavam e eram materializados nas cartilhas e nos manuais dos professores (SOARES, 2006):
Não tinha uma teoria, porque aquele método era tudo: se adotassem o silábico, mantinham-se no silábico, pois não tinham uma teoria lingüística ou psicológica que justificasse ser aquele o melhor método ou aquela melhor seqüência de aprendizado. A verdade era exclusivamente o que dizia a cartilha. Havia um método, mas não uma teoria. Hoje acontece o contrário: todos têm uma bela teoria construtivista da alfabetização, mas não têm método. Se antigamente havia método sem teoria, hoje temos uma teoria sem método. E é preciso ter as duas coisas: um método fundamentado numa teoria e uma teoria que produza um método.
Existe também a falsa inferência de que, se for adotada uma teoria construtivista, não se pode ter um método, como se os dois fossem incompatíveis. Ora, absurdo é não ter método na educação. (Ibid, 2006, p.2).
     Diante dessa nova concepção, a escola deixou de utilizar um método, seja ele qual for, de alfabetização. Permitindo que a criança aprenda somente pelo contato direto com a leitura e a escrita. É uma falsa conclusão pensar que na teoria construtivista não se pode ter um método de alfabetização.
     Além disso, a formação inicial do professor alfabetizador é, de maneira geral, frágil. Durante a graduação a alfabetização é vista em uma disciplina separada das outras áreas. O ensino da leitura e da escrita deve ser entendido interdisciplinarmente. Mas para que isso aconteça, é fundamental que haja uma mudança na grade curricular dos cursos de Pedagogia. É preciso uma visão curricular interdisciplinar, na qual a disciplina que "ensina como alfabetizar", não ensine somente a teoria e métodos de alfabetização, mas que busque na teoria respostas para a prática docente.
     Os currículos dos cursos de Pedagogia dão muita ênfase às questões estruturais e históricas da Educação, sem refletir o "quê" e o "como" alfabetizar (NOVA ESCOLA, 2008). Não fazem a correlação entre teoria e prática, e quando esses professores chegam às classes de alfabetização não sabem como lidar com a realidade escolar.
     Para a antropóloga Eunice Durham (2008), em entrevista a revista Veja, os professores não sabem o que fazer quando entram em sala de aula porque a universidade supervaloriza a teoria e menospreza a prática, mostrando que o trabalho concreto de sala de aula é de menor valor em relação às reflexões mais nobres. Para ela, a situação fica ainda pior, quando esses professores não aceitam que o ensino está ruim por conseqüência de sua péssima formação.
Segundo a antropóloga, os professores:
Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato do governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. É um cenário preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino ? e, conseqüentemente, da responsabilidade. (DURHAM, 2008, p. 20).
     Os professores alfabetizadores necessitam de formação especial, mais sólida e aprimorada, devido à importância de seu trabalho. Na sua formação são estudados alguns métodos de alfabetização, uns não são bem entendidos e outros distorcidos.
     Esses métodos são repetidos sem que o professor saiba como fazê-los funcionar na prática de sala de aula. É fundamental que os cursos de graduação mostrem na prática como funcionam as teorias que eles ensinam. Encher os futuros professores de teoria não assegura a qualidade da formação. Uma bela teoria que não funciona na prática acaba contribuindo para o aumento do fracasso dos alunos.
     Outro aspecto que influencia no aprendizado são as condições de vida das famílias desses alunos. Para Charmeux (Apud Freitas, 1995), "a maneira como 'a coisa escrita' é recebida em casa determina em grande parte o modo pelo qual a criança vai recebê-la no contexto familiar vai determinar a impressão que a criança vai ter sobre ela". Ou seja, crianças que vivem em um ambiente no qual a família utiliza e valoriza a leitura e a escrita, tem mais facilidade para aprender. Já as que não têm esse ambiente podem apresentar maior dificuldade.
     O hábito da leitura na família tem influência notável no desenvolvimento da criança. O ambiente letrado é estimulador e favorável para o aprendizado da leitura e da escrita. A criança que no seu dia a dia, no seu convívio familiar está rodeada de pessoas que têm o hábito de ler será levada facilmente a adquirir esse hábito e virá a ser um leitor ativo.
     Em várias famílias de classe mais baixa, escrever pode limitar-se somente a assinar o próprio nome ou, no máximo, a reproduzir listas de palavras e recados curtos. Para quem convive com esse mundo, escrever como a escola pretende pode ser esquisito, indesejável, desnecessário. Entretanto, os que convivem num meio social onde se leem jornais, livros, revistas, no qual os adultos escrevem com frequência e as crianças, desde pequenas, possuem seu estojo repleto de lápis, canetas, borrachas, etc. consideram muito natural o que a escola realiza, porque, na verdade, significa um prolongamento do que já realizavam e esperavam que a escola realizasse. Conseqüentemente, alfabetizar classes sociais que vêem a escrita como uma mera garantia de sobreviver na sociedade é diferente de alfabetizar classes sociais que consideram a escrita, além de essencial, uma forma de manifestação individual de arte, de passatempo. (CAGLARI, 2004).
     Essas crianças de classes menos favorecidas enfrentam um quadro de alimentação deficiente, de ausência de atenção, carinho, estímulos em casa, local adequado para estudar, de informações e contatos com a língua escrita, e muitas vezes essas crianças precisam trabalhar para aumentar a renda familiar, ou tomar conta dos irmãos menores para que os pais trabalhem.(BAETA, 1992). Com isso, acabam não tendo tempo suficiente para se dedicar aos estudos. Entretanto, conhecer essa verdade deve servir para a escola adaptar as práticas pedagógicas à sua clientela, ao invés de "... usar este conhecimento como álibi para eximir a escola de seu papel na produção do fracasso escolar". (IBID, 1992, p.20). É necessário que a escola utilize esse conhecimento e modifique suas práticas, e busque a causa do insucesso desses alunos nela mesma, em vez de justificar o baixo rendimento como uma causa orgânica inerente a eles.
     Outro fator significativo no fracasso das crianças das classes menos favorecidas é a linguagem privilegiada pela escola, que é diferente daquela utiliza por eles no seu contexto social. De acordo com Magda Soares:
... a linguagem é também o fator de maior relevância nas explicações do fracasso escolar das camadas populares. É o uso da língua na escola que evidencia mais claramente as diferenças entre grupos sociais e que gera discriminações e fracasso: o uso, pelos alunos provenientes das camadas populares, de variantes lingüísticas social e escolarmente estigmatizadas provoca preconceitos lingüísticos e leva a dificuldades de aprendizagem, já que a escola usa e quer ver usada a variante-padrão socialmente prestigiada. (SOARES, 1991, p.17).

     Sendo assim, a escola necessita levar em consideração o conhecimento que a criança, de classe menos favorecida ou não, já traz sobre a linguagem, que é um produto cultural. (IBID,1991, p.16).  Por isso, a escola não deve afirmar que essas crianças não sabem falar corretamente, e que como conseqüência não aprenderão a ler. Elas aprenderam a falar dentro de seu contexto familiar e social, que é diferente do dialeto-padrão utilizado e valorizado pela escola.
     De acordo com os fatos mencionados, percebe-se que o insucesso na alfabetização ocorre, muitas vezes, por causa do despreparo das escolas e dos professores. Alguns dos professores até passaram, pela graduação, mas isso não garante a qualidade do ensino já que alguns dos cursos de Pedagogia não estão formando profissionais com competências essenciais para alfabetizar.
     Para mudar esse quadro é necessário investir na formação inicial e continuada do professor, para desenvolver as competências inerentes à prática alfabetizadora.


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